sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Viagem pelo Sado

A sul do Distrito de Setúbal, existe um rio, esgueiriço e peculiar, que estende os seus braços por uma paisagem dissemelhante e de invulgar beleza. Navegando pelo Sado, vislumbramos as grandes herdades associadas à exploração agrícola e florestal, encontramos pescadores em embarcações toscas ou na apanha de moluscos e crustáceos, distinguimos o branco do sal nas margens ou áreas de ocupação urbana (recente e ancestral). Mas, em especial, ficamos absorvidos pela diversidade natural das dunas litorais, dos sapais, das lagoas ou dos caniçais… A nossa viagem começa na cidade de Setúbal e, contra a corrente, de jusante para montante, iremos percorrer o caminho dos galeões do sal, passando pelos concelhos de Palmela e Grândola, rumo a Alcácer do Sal.

É na Baía de Setúbal que o Sado, depois de percorrer cerca de 165 quilómetros - desde a sua nascente na Serra do Caldeirão - e de se repartir por inúmeros afluentes (Ribeiras do Roxo; Figueira; Odivelas; Xarrama; Algalé; Santa Catarina; S. Martinho e Marateca; as ribeiras de Campilhas, Corona, Grândola e Comporta), alcança enfim o mar…
As condições geo-estratégicas do rio Sado e a existência de um clima temperado com influências mediterrânicas e atlânticas propiciaram a fixação de populações nas suas margens. Os vestígios mais antigos de ocupação humana descobertos até à data, no território compreendido entre Setúbal e Alcácer do Sal, remontam ao Neolítico médio final e situam-se maioritariamente entre a Comporta e a Carrasqueira, embora tenha sido descoberta uma jazida no Faralhão. É de salientar, contudo, que nos actuais concelhos de Palmela e Alcácer do Sal foram encontrados vestígios arqueológicos que remontam a períodos anteriores, designadamente ao Paleolítico médio (Quinta da Cerca, em Palmela e a própria Alcácer) e Mesolítico (Camarral, em Palmela).
A biodiversidade ao longo do rio Sado despertou séculos depois, a cobiça dos romanos, cujo interesse incidiu sobretudo na exploração e transformação dos recursos marinhos. Nas praias de desembocadura do Sado (Rasca, Comenda, Setúbal e Tróia…) foram instalados importantes centros fabris de sal, de peixe e de preparação de garum (uma mistura de restos de peixe, ovas, sangue, mariscos e moluscos macerados em sal, a que se adicionavam molhos), que depois de embalado em ânforas ( fabricadas em fornos situados em Pinheiro, Abul, Zambujalinho…) era exportado para vários pontos do Império Romano.
Esta terá sido uma época de navegação intensa no rio, onde Alcácer do Sal desempenhava um papel crucial, não só por beneficiar de um porto fluvial e de ser paragem obrigatória na estrada de Olissipo (Lisboa) a Ebora (Évora) e a Pax Julia (Beja), mas também por ser um centro de produção de sal e de lãs. Posteriormente, o povoado terá perdido a influência para outros núcleos urbanos: Cetobriga (Setúbal) e Tróia.



Na período das invasões árabes, Setúbal estagnava, enquanto outros aglomerados emergiam novamente, como é o caso de Alcácer do Sal, com a sua produção de lacticínios, manteiga, mel e carne, uma fortificação militar imponente e a mais importante da Península, e o já referido porto, onde se fazia construção naval e era ponto estratégico de comércio; e também Palmela.
A hegemonia de Setúbal só foi retomada após a Reconquista Cristã, altura em que parte da plebe que se havia recolhido junto das praças de Alcácer e Palmela se fixou na foz do Sado.
Os séculos XV e XVI são marcados pelo acentuado desenvolvimento a vários níveis: económico, devido à preponderância do sal como moeda de troca e retribuição de ajuda militar fornecida pelas Nações Europeias (Setúbal e Alcácer); político-militar (Palmela), com a instalação da Ordem Religiosa e Militar de Santiago de Espada; demográfico (Grândola); e tecnológico (Alcácer do Sal), com a invenção do nónio (instrumento utilizado para avaliar grandezas lineares ou angulares que escapam à visão normal) por Pedro Nunes.
Esta prosperidade foi interrompida com o terramoto de 1755, especialmente no que diz respeito aos concelhos de Setúbal e Palmela e só voltou a instalar-se no século XIX.


in:Setúb@l Peninsula Digital

1 comentário:

Anónimo disse...

Inacreditável essa apresentação de uma ucraniana de 24 anos chamada Kseniya Simonova, há alguns meses, no “Ukraine’s Got Talent”.

A jovem impressionou e levou às lágrimas toda a plateia ao elaborar uma série de desenhos feitos em uma mesa de areia iluminada, mostrando como as pessoas de seu país foram afetadas pela invasão alemã durante a Segunda Guerra Mundial.
Se não conhecem, assistam. Vale a pena. Ela nunca erra o traço, trabalha com rapidez surpreendente e o que é melhor: conhece a história de seu país! Não há palavras para descrever...

http://www.youtube.com:80/watch?v=518XP8prwZo&feature=player_embedded